Afeganistão: As 'burca boxers'
18 de Janeiro, 2012 por Ana Cristina Câmara
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Ali,
onde os talibãs mutilaram, chicotearam e assassinaram em público homens
e mulheres, durante o seu reinado de terror no Afeganistão, de 1996 a
2001, o Estádio Ghazi, em Cabul, voltou a servir os seus intentos
iniciais – a prática desportiva.
E é também ali que se faz história no
país. Não apenas história do desporto, mas de coragem, valores,
reivindicações, justiça e paz. Nas instalações do recinto, treina desde
2007 a primeira equipa de boxe feminino do Afeganistão, cerca de vinte
jovens que, entre jabs, directos e uppercuts, abrem caminho à força de
punhos e muita perseverança, numa sociedade que ainda as ameaça e onde
mulheres e crianças são vítimas fáceis. Na equipa Fighting for Peace
(Lutando pela Paz), duas atletas sobressaem – as irmãs Rahimi. É nelas
que o Afeganistão deposita esperanças de uma medalha olímpica, nos jogos
de Londres.
É difícil escapar ao simbolismo. São mulheres, que às
mãos dos talibãs perderam os direitos mais fundamentais (da liberdade
de expressão aos cuidados de saúde, da educação ao emprego, para não
falar no desporto e no uso obrigatório da burca), que treinam em Ghazi,
que assumem o poder da sua força física. Na mesma cidade em que, anos
antes, eram condenadas à morte por adultério, um crime, segundo a
interpretação talibã da lei islâmica, ainda que fosse uma violação. «É
assustador quando se pensa nisso. À noite, tenho medo. Parece
assombrado, sangue inocente foi derramado aqui», explica à CBS Shabnam
Rahimi, 19 anos, atleta sobre a qual recaem as maiores expectativas, e
que não presenciou esses tempos: a família tinha fugido para o Irão.
Orgulho e ameaças
Foi
ela que trouxe, do Tajiquistão, uma medalha de ouro, tendo a irmã
Sadaf, de 18 anos, conquistado a de prata. Em Maio, competem no
Campeonato do Mundo em Chonqing, na China – torneio que servirá para
qualificar pugilistas femininas para os Jogos Olímpicos de Londres.
Essa
é a meta. «As afegãs apenas são conhecidas por serem oprimidas e
pobres. Irmos às Olimpíadas é poder orgulhar o Afeganistão e mostrar ao
mundo que existimos», diz Shabnam à CBS.
«Temos muitos problemas.
Aqui, no Afeganistão, as pessoas pensam que devemos ficar em casa, sem
ir à escola e nunca fazer boxe», conta a benjamim Sadaf à NBC. E foram
mais longe, como recorda a irmã Shabnam à Reuters: «Há dois anos, alguém
telefonou ao meu pai e ameaçou raptar-nos ou matar-nos se
continuássemos». Os treinos foram interrompidos durante um mês, até o
treinador assegurar o transporte das atletas. Toda a preparação física
limita-se ao ginásio.
A luta é diária. As jovens chegam
tradicionalmente vestidas, cobertas com o hijab, mas, à medida que o
treino avança, entre saltos, corridas e murros, o véu desliza, os
cabelos ficam a descoberto – e cada vez mais se parecem com qualquer
outra desportista, ainda que usem calças em vez de calções. O cenário,
sim, destoa: quatro sacos apenas, na cave do estádio, no ginásio
poeirento de vidros partidos, forrado de finos colchões sobre o chão de
cimento.
«Recebemos um dólar por dia, por cada atleta. O que
podemos fazer? O equipamento deixa a desejar, não temos condições para
treinar como os outros», queixa-se o treinador Saber Sharifi à NBC. Os
poucos apoios são dados pelo Comité Olímpico e pela ONG Cooperation for
Peace and Unity. Mas nada disto tem impedido que a história da equipa de
boxe feminina seja contada.
Um realizador fascinado
Ariel
Nasr é meio americano, meio afegão, e foi criado no Canadá. Autor do
documentário Good Morning Kandahar (2008) – sobre jovens afegãos que
vivem no Canadá e vêem a missão da NATO no seu país de origem à
distância –, o realizador quis filmar uma história no país. «Quando
soube desta equipa de boxe, fiquei fascinado», lembra ao SOL, em
entrevista por email. Durante mais de um ano, acompanhou as jovens – «é
como se fossem minhas irmãs» – e testemunhou, em filme e em pessoa, a
sua perseverança. «Talvez o maior problema seja que a equipa não tem
acesso a um ringue. Por isso só têm contacto real com as condições nas
quais devem competir quando vão a torneios. Isso torna ainda mais
impressionante o facto de terem começado a vencer», relatou.
The
Boxing Girls of Kabul (As Raparigas Pugilistas de Cabul) foi a forma
encontrada por Ariel Nasr de contar a história das jovens. O
documentário, produzido pelo Instituto Nacional do Filme do Canadá,
estreou-se em Novembro de 2011 no IDFA, Festival Internacional de
Documentários de Amesterdão. Segue-se o circuito internacional de
documentários, com submissão prevista para a edição de 2012 do
doclisboa.
Segurar nas rédeas do destino
Nas
filmagens, Ariel pôde perceber melhor as questões com que se debatem
estas jovens, ainda dependentes dos pais. «Todas as raparigas da equipa
já foram pressionadas para pararem com o boxe, seja por alguém da
família, por um professor, um vizinho, até um estranho. Há uma enorme
pressão para as mulheres se conformarem à norma», conta ao SOL.
Conciliam
o Corão com o desporto. E sentem a quase imposição de se casarem. Uma
promissora atleta, que Ariel ainda filmou, Shala Sekandari, estava no
bom caminho para as Olimpíadas. Depois casou-se e abandonou o boxe. O
realizador cita a mãe das Rahimi para atestar alguma mudança de
mentalidades: «Se elas não se casarem, o boxe será o seu marido».
Shabnam
e Sadaf marcaram o documentarista. «São miúdas corajosas, determinadas,
brilhantes e íntegras. Têm a atitude necessária para serem campeãs, se
lhes forem dadas as oportunidades», acredita.
Com as rédeas do
destino nas mãos, apesar das dificuldades, estas burca boxers, como já
as apelidaram, podem ser as primeiras mulheres a levar uma medalha
olímpica para o Afeganistão. Do currículo do país consta apenas uma, de
bronze, conquistada por Rohullah Nikpai nos Jogos de Pequim, em 2008, na
modalidade de taekwondo. Tornou-se um herói nacional. E elas? Mesmo que
falhem, nunca perderam de vista, mais do que o boxe, o direito a
escolherem o seu próprio futuro.

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